domingo, 1 de dezembro de 2013

Abusos sexuais nas Forças Armadas dos EUA chocam o país.

NOVA YORK - Era primavera de 1974. Michael Matthews tinha 19 anos e pegou um atalho no caminho de volta para o dormitório, depois de um dia de trabalho no setor de comunicações da Força Aérea americana em Missouri, Centro-Oeste dos Estados Unidos. Estava escurecendo. Atingido na cabeça, ele caiu inconsciente no meio de uma obra.

- Quando acordei, havia três caras de farda me segurando. Achei que alguma coisa tinha caído em cima de mim e eles estavam ajudando, mas logo percebi que não me deixavam levantar. Quando comecei a gritar, eles me bateram muito, com socos e chutes, e disseram que, se eu não parasse, me matariam. Dois desses homens me imobilizaram e o terceiro abaixou as minhas calças. Gritei mais, apanhei mais, e o cara que estava atrás de mim disse: “Aposto que você vai gostar disso.” E me sodomizou. A dor era excruciante, e eu só pensava que iam me matar. Não podia imaginar que me deixariam viver depois de fazerem algo assim comigo - conta Matthews por telefone ao GLOBO, de sua casa, em Albuquerque, no Novo México.

Trinta anos achando que era o único

O militar - que se aposentou como sargento técnico - demorou três décadas para contar a sua história. Hoje, ele é um dos principais ativistas de uma causa que alarma o país: segundo um levantamento do Pentágono, 26 mil oficiais sofreram abuso ou assédio sexual nas Forças Armadas em 2012. Um salto expressivo do ano anterior, quando o relatório apontou 19 mil. Cinquenta e três por cento dos casos (cerca de 14 mil) ocorreram com homens, e 76% deles nunca prestaram queixa.

- A maior população vítima de estupro nos Estados Unidos é a de militares do sexo masculino - ressalta Matthews.

Ele passou 30 anos achando que era o único - até que foi parar num centro médico de veteranos, após longos períodos de depressão e sete tentativas de suicídio. A assistente social que o atendeu foi direto ao ponto: “Por que você não me conta sobre o estupro?”

- Caí em prantos e cuspi tudo o que vinha guardando - lembra ele, que precisou de quatro sessões de terapia para conseguir contar para a mulher, Geri Lynn Weinstein-Matthews, que já era sua parceira havia duas décadas. - A maioria das vítimas com quem venho conversando desde então dizem que não tinham ideia de que isso acontecia com outras pessoas. Eu também não, e por isso nunca contei a uma alma sequer. Achei que seria expulso, como agora sei que realmente fizeram com pessoas que relataram que foram estupradas: muitos homens foram mandados para casa, rotulados de homossexuais.

Na próxima sexta-feira, Matthews estará no Pentágono, em Washington, a convite de uma general que quer discutir formas de fazer com que as vítimas prestem queixa - se 40% dos estupros vão a julgamento nos Estados Unidos, nas Forças Armadas isso só acontece em 7% dos casos. Ele milita ainda pela aprovação, no Congresso, de um projeto de lei que cria uma instância de monitoramento civil.

- Segundo a Associação Americana de Psicologia, 90% dos estupradores são seriais. Um estuprador comete entre 300 e 600 estupros ao longo da vida. Então, se eles ficarem soltos, tudo indica que vão continuar estuprando. Mas podemos reduzir esses números - garante ele. - Um exemplo básico: os recrutas devem passar por testes psicológicos antes de entrar.

Bill Capshaw que o diga. Hoje com 51 anos, ele foi estuprado e torturado incontáveis vezes por seu colega de quarto numa base do Exército na Alemanha, quando tinha 17. Capshaw chegou a relatar as agressões mais de uma vez. Mas sempre acabava mandado de volta ao quarto 103. Jeffrey Dahmer, hoje conhecido como o Canibal de Milwaukee, foi preso em 1991 pelo assassinato de 17 pessoas e morreu espancado na cadeia.

- Esse homem acabou sendo descoberto como um dos maiores e mais cruéis assassinos deste mundo - diz Capshaw ao GLOBO, também por telefone, da casa que divide com o irmão no estado de Arkansas. - Passei 18 meses dormindo ao lado dele. Perdi 25 quilos. Estava sempre machucado, mas ninguém ligava. Fui estuprado e apanhei quase diariamente. Quando finalmente fui dispensado e voltei para a casa da minha mãe, fiquei cinco anos sem sair do quarto.

Como Matthews, Capshaw viu tudo mudar quando se rendeu à terapia, 26 anos atrás. E, também como ele, tentou se matar algumas vezes - se atentados sexuais são uma das duas maiores pragas das Forças Armadas, a outra é o suicídio.

- Se você tem 17 anos, está implorando por ajuda e ninguém ouve, o que pode fazer? Fiquei muito doente por muito tempo - diz ele, que vive da verba compensatória que recebe do Exército duas vezes por mês. - Uma história dessas tira a sua alma, quebra o seu espírito. E você vive assim o resto da vida.

Trauma permanente

Capshaw - que participa do documentário de Matthews - tem o corpo tomado por cicatrizes e toma remédios para dor diariamente desde a sua curta passagem pelas Forças Armadas.

- Se nos ouvissem, esse problema não existiria. Tem que ser criado um sistema de relato anônimo e as queixas devem ser investigadas propriamente. As vítimas precisam ser mandadas para longe de onde o trauma ocorreu e ganhar ajuda psicológica imediatamente. Como os EUA podem começar uma guerra em uma semana mas não conseguem resolver isso? É indesculpável.

Matthews, por sua vez, desenvolveu um comportamento paranoico — sempre armado, evitando lugares escuros e traçando rotas de fuga. Salvo pela militância, ele conta que jamais vai esquecer os detalhes daquela sexta-feira de 1974.

- Quando consegui me levantar, fui para o meu quarto, me lavei o melhor que pude na pia e não saí da cama o fim de semana todo, nem para comer. Na segunda-feira, quando me perguntaram sobre os hematomas, eu disse que tinha brigado num bar, e todos riram - ele recorda. - O pior da minha vida já passou. Tudo agora é lucro.


Fonte: Jornal O Globo.

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