NOVA YORK
- Era
primavera de 1974. Michael Matthews tinha 19 anos e pegou um atalho no caminho
de volta para o dormitório, depois de um dia de trabalho no setor de comunicações
da Força Aérea americana em Missouri, Centro-Oeste dos Estados Unidos. Estava
escurecendo. Atingido na cabeça, ele caiu inconsciente no meio de uma obra.
- Quando
acordei, havia três caras de farda me segurando. Achei que alguma coisa tinha
caído em cima de mim e eles estavam ajudando, mas logo percebi que não me
deixavam levantar. Quando comecei a gritar, eles me bateram muito, com socos e
chutes, e disseram que, se eu não parasse, me matariam. Dois desses homens me
imobilizaram e o terceiro abaixou as minhas calças. Gritei mais, apanhei mais,
e o cara que estava atrás de mim disse: “Aposto que você vai gostar disso.” E
me sodomizou. A dor era excruciante, e eu só pensava que iam me matar. Não
podia imaginar que me deixariam viver depois de fazerem algo assim comigo -
conta Matthews por telefone ao GLOBO, de sua casa, em Albuquerque, no Novo
México.
Trinta
anos achando que era o único
O militar
- que se aposentou como sargento técnico - demorou três décadas para contar a
sua história. Hoje, ele é um dos principais ativistas de uma causa que alarma o
país: segundo um levantamento do Pentágono, 26 mil oficiais sofreram abuso ou
assédio sexual nas Forças Armadas em 2012. Um salto expressivo do ano anterior,
quando o relatório apontou 19 mil. Cinquenta e três por cento dos casos (cerca
de 14 mil) ocorreram com homens, e 76% deles nunca prestaram queixa.
- A maior
população vítima de estupro nos Estados Unidos é a de militares do sexo
masculino - ressalta Matthews.
Ele
passou 30 anos achando que era o único - até que foi parar num centro médico de
veteranos, após longos períodos de depressão e sete tentativas de suicídio. A
assistente social que o atendeu foi direto ao ponto: “Por que você não me conta
sobre o estupro?”
- Caí em
prantos e cuspi tudo o que vinha guardando - lembra ele, que precisou de quatro
sessões de terapia para conseguir contar para a mulher, Geri Lynn
Weinstein-Matthews, que já era sua parceira havia duas décadas. - A maioria das
vítimas com quem venho conversando desde então dizem que não tinham ideia de
que isso acontecia com outras pessoas. Eu também não, e por isso nunca contei a
uma alma sequer. Achei que seria expulso, como agora sei que realmente fizeram
com pessoas que relataram que foram estupradas: muitos homens foram mandados
para casa, rotulados de homossexuais.
Na
próxima sexta-feira, Matthews estará no Pentágono, em Washington, a convite de
uma general que quer discutir formas de fazer com que as vítimas prestem queixa
- se 40% dos estupros vão a julgamento nos Estados Unidos, nas Forças Armadas
isso só acontece em 7% dos casos. Ele milita ainda pela aprovação, no
Congresso, de um projeto de lei que cria uma instância de monitoramento civil.
- Segundo
a Associação Americana de Psicologia, 90% dos estupradores são seriais. Um
estuprador comete entre 300 e 600 estupros ao longo da vida. Então, se eles
ficarem soltos, tudo indica que vão continuar estuprando. Mas podemos reduzir
esses números - garante ele. - Um exemplo básico: os recrutas devem passar por
testes psicológicos antes de entrar.
Bill
Capshaw que o diga. Hoje com 51 anos, ele foi estuprado e torturado incontáveis
vezes por seu colega de quarto numa base do Exército na Alemanha, quando tinha
17. Capshaw chegou a relatar as agressões mais de uma vez. Mas sempre acabava
mandado de volta ao quarto 103. Jeffrey Dahmer, hoje conhecido como o Canibal
de Milwaukee, foi preso em 1991 pelo assassinato de 17 pessoas e morreu
espancado na cadeia.
- Esse
homem acabou sendo descoberto como um dos maiores e mais cruéis assassinos
deste mundo - diz Capshaw ao GLOBO, também por telefone, da casa que divide com
o irmão no estado de Arkansas. - Passei 18 meses dormindo ao lado dele. Perdi
25 quilos. Estava sempre machucado, mas ninguém ligava. Fui estuprado e apanhei
quase diariamente. Quando finalmente fui dispensado e voltei para a casa da
minha mãe, fiquei cinco anos sem sair do quarto.
Como
Matthews, Capshaw viu tudo mudar quando se rendeu à terapia, 26 anos atrás. E,
também como ele, tentou se matar algumas vezes - se atentados sexuais são uma
das duas maiores pragas das Forças Armadas, a outra é o suicídio.
- Se você
tem 17 anos, está implorando por ajuda e ninguém ouve, o que pode fazer? Fiquei
muito doente por muito tempo - diz ele, que vive da verba compensatória que
recebe do Exército duas vezes por mês. - Uma história dessas tira a sua alma,
quebra o seu espírito. E você vive assim o resto da vida.
Trauma
permanente
Capshaw -
que participa do documentário de Matthews - tem o corpo tomado por cicatrizes e
toma remédios para dor diariamente desde a sua curta passagem pelas Forças
Armadas.
- Se nos
ouvissem, esse problema não existiria. Tem que ser criado um sistema de relato
anônimo e as queixas devem ser investigadas propriamente. As vítimas precisam
ser mandadas para longe de onde o trauma ocorreu e ganhar ajuda psicológica
imediatamente. Como os EUA podem começar uma guerra em uma semana mas não
conseguem resolver isso? É indesculpável.
Matthews,
por sua vez, desenvolveu um comportamento paranoico — sempre armado, evitando
lugares escuros e traçando rotas de fuga. Salvo pela militância, ele conta que
jamais vai esquecer os detalhes daquela sexta-feira de 1974.
- Quando
consegui me levantar, fui para o meu quarto, me lavei o melhor que pude na pia
e não saí da cama o fim de semana todo, nem para comer. Na segunda-feira,
quando me perguntaram sobre os hematomas, eu disse que tinha brigado num bar, e
todos riram - ele recorda. - O pior da minha vida já passou. Tudo agora é
lucro.
Fonte: Jornal O Globo.

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